"Ziraldo faz ‘O Pasquim’ renascer", copyright Folha de S. Paulo, 18/02/02
"‘Temos a redação mais bem localizada do Brasil’, ufana Ziraldo Alves Pinto, 69, em Botafogo, no mais novo Q.G. do nem tão novo assim semanário ‘O Pasquim’, símbolo da resistência contra o regime militar que volta a circular nas bancas de todo o país a partir de amanhã. ‘Você está vendo o Pão de Açúcar daí?’, provoca.
Com 44 páginas em formato standard, tiragem inicial de 100 mil exemplares e distribuição em todo o território nacional, ‘O Pasquim 21’, como passa a ser chamado, terá também ‘a maior charge jamais publicada no país’, garante Ziraldo.
‘O Aroeira fez a caricatura de cada um dos 46 eleitores da Roseana, já que, até agora, ela não disse ainda de que lado está’, ironiza o cartunista.
E não é só isso, a nova versão do jornal oferece ainda uma opção de anúncios personalizados para os assinantes empresariais.
‘Já estou sentindo saudades de quando éramos acusados de receber ouro de Moscou. Agora, não sei mais onde arrumar dinheiro’, brinca Ziraldo, que, na verdade, conta com a ajuda da Sirius Sistemas Digitais e da Prefeitura do Rio de Janeiro, que comprou uma página para divulgar eventos culturais da cidade. ‘É o que sustenta o jornal. A idéia é tentar fazer isso também com São Paulo, Porto Alegre, Brasília etc.’
Quem conhece a trajetória de ‘O Pasquim’ sabe que dinheiro nunca foi o forte de ninguém que estivesse no comando. Não que ele não entrasse, ainda mais em uma publicação que atingia a marca de 200 mil exemplares em plena vigência do AI-5, o problema era administrativo.
‘A censura hoje é econômica. Se eles saírem por aí malhando todo mundo, não vai sobrar anunciantes nem gráfica para rodar’, pondera Gualberto Costa, cartunista e dono de ‘quase todas as edições do ‘Pasquim’, que em breve farão parte do primeiro Museu de Artes Gráficas do país, que está sendo montado em São Paulo.
‘No caso de ‘Bundas’, a escolha do nome foi um erro. Acabamos afastando os anunciantes com isso’, afirma Ziraldo. ‘Achava que as pessoas iriam se acostumar, como fizeram com ‘Casseta’ (publicação carioca que antecedeu o humorístico da Globo).’ Coisa que não aconteceu. Depois de pouco mais de um ano de existência, a revista foi sumindo aos poucos das bancas e aumentado cada vez mais a dívida do cartunista. ‘Ainda devo uma baba na praça, algo em torno de R$ 1 milhão’, diz.
Divergências pessoais, profissionais e o medo de entrar em mais uma fria tiraram da jogada outros veteranos de ‘O Pasquim’, como Millôr Fernandes e Jaguar. ‘O Jaguar acha que eu estou exumando um cadáver. É natural, ele deu o nome, que a gente comprou agora, mas ‘O Pasquim’ criou vida própria há tempos’, fala Ziraldo. O assunto, de fato, ainda divide opiniões. ‘Acho que eles poderiam ter escolhido outro nome. Para quem acompanhou de perto, a lembrança dos últimos anos de ‘O Pasquim’ não é muito boa. É como se o Pelé tivesse continuado jogando e resolvesse voltar 20 anos depois’, opina Gual.
‘Não vejo problema, é só uma tentativa de recuperar o espírito de irreverência da época. Se vai dar certo, eu não sei’, afirma Luís Fernando Verissimo, que participou dos tempos áureos da publicação e que, agora, contribuiu com texto de abertura da nova. ‘O importante é apresentar essa gente que não tem espaço para mostrar seu trabalho’, diz Veríssimo.
O PASQUIM 21 - nova versão semanal da publicação dos anos 70. Lançamento: amanhã, nas bancas de SP, RJ, MG e outros. Preço: R$ 2,90 (44 págs. cor)."
Diego Assis, Folha de S. Paulo